O que é a Deep Web? História, mitos e realidade

Se você está lendo este texto, é bem provável que já tenha se deparado com os termos “Deep Web” e “Dark Net” : um lugar obscuro, cheio de criminosos, onde estariam os conteúdos mais bizarros e inimagináveis.

Talvez o que mais assuste seja ouvir que a Deep Web seria até mesmo maior que a internet convencional. Se a internet que usamos todos os dias já é gigantesca, como seria possível existir algo ainda maior?

Mas e se eu te dissesse que boa parte dessas afirmações estão erradas ou, no mínimo, exageradas?

A origem do termo Deep Web

O termo “Deep Web” surgiu em 2001, quando Michael Bergman publicou o artigo “The Deep Web: Surfacing Hidden Value”. Nele, o autor usou o termo para se referir à partes da Internet que não seriam indexadas por buscadores como o Google e o Yahoo!. Com isso, Bergman se referia a intranets corporativas, banco de dados, e até páginas protegidas por login e senha, como o seu perfil no Instagram, e-mail e LinkedIn. É com isso em mente que o autor afirma que a Deep Web seria centenas de vezes maior que a internet convencional.

Mas não  é isso que você imagina quando falam de Deep Web, certo?

Da “Deep Web” ao mito da internet obscura

Com o tempo o termo foi sofrendo alterações. Em 2009, por exemplo, o jornal The Guardian publicou a matéria “The dark side of the internet”, destacando crimes que ocorrem em uma alternativa à Internet, a Freenet. Segundo o jornalista Ian Becket, 

Outro episódio que reforçou a imagem da Deep Web como um lugar perigoso foi o surgimento da Silk Road (2011), um mercado de drogas na rede Tor. O jornalista Adrian Chen a descreveu como a “Amazon das substâncias ilegais”. Criada por Ross Ulbricht (o “Dread Pirate Roberts”), a Silk Road ganhou atenção mundial até ser derrubada em 2013, quando Ulbricht foi preso.

De lá para cá, a expressão “Deep Web” ganhou contornos quase míticos. Há filmes de terror, como Unfriended 2: Dark Net, que se escoram na mítica criada para desenvolver a trama. Há YouTubers que contam histórias de terror sobre a Deep Web (as creepy pastas), ou mostram sites que estão hospedados na suposta Deep Web.

Deep Web existe mesmo?

Na prática, eu argumento que não, a Deep Web tal qual é retratada não existe. O que existem são redes alternativas à internet convencional que permitem mais anonimato aos usuários.

Como expliquei em outro texto, a Internet convencional funciona como os correios: você envia pacotes de informações, que passam por diferentes roteadores até achar o destino. A informação, então, volta para seu computador e você acessa o site desejado. Para que isso seja possível, a rede precisa saber quem enviou e para onde vai a mensagem.

A grosso modo, as redes alternativas conseguem burlar esse sistema e funcionar sem que o remetente e o destinatário sejam publicamente conhecidos. Em textos futuros vou falar sobre várias dessas redes. A título de curiosidade, podemos citar a rede Tor, a Freenet, I2P, entre outras.

Mas vamos lá. De acordo com o Tor Project, de 1 a 2 milhão de pessoas utilizam a rede Tor por dia, aproximadamente. Esse número não é ínfimo perto dos bilhões de pessoas que utilizam a internet convencional diariamente. Ou seja, não faz sentido dizer que a Deep Web é “muito maior” do que a web aberta. Aliás, essa nem era a ideia original de Bergman, que se referia aos sites não indexados dos buscadores.

Além disso, é preciso dizer que esse tema é especialmente caro para mim, uma vez que foi o tema da minha dissertação de mestrado. Nela, entrevistei usuários da Rede Tor para entender práticas de consumo na rede e, o que encontrei, é que existe todo um ecossistema complexo que permeia as redes alternativas.

De ativistas em prol da privacidade e contra a vigilância massiva, passando por jornalistas e produtores de conteúdo, até curiosos que acessam a rede para ver se as histórias sobre a Deep Web são verdadeiras, há diversos usos e própositos para se utilizar redes alternativas. Pensar, então, que todos os 1 milhão de pessoas que utilizam a rede diariamente são criminosas é falacioso. 

Soma-se a isto ao fato de que muito do que é atribuído à “Deep Web” ocorreu, na verdade, na internet convencional. Em 2019, por exemplo, ocorreu um massacre em uma escola no Brasil. A cobertura jornalística da época afirmou que o assassino frequentava um fórum racista na Deep Web. Pois bem, o forum era, na verdade, hospedado na internet convencional. Muitos dos crimes que se atribuem à Deep Web, na verdade, são bem mais comuns na Internet convencional, onde não é necessário ter um conhecimento técnico grande para acessar.

Conclusão: como interpretar a Deep Web com literacia de mídia

A chamada “Deep Web” não é um único lugar misterioso, mas sim um conjunto de redes alternativas que oferecem maior anonimato. Com literacia de mídia, conseguimos diferenciar mito de realidade e compreender os reais desafios dessas redes: anonimato, privacidade, segurança e, sim, também o crime.

Para Saber Mais

Tor Project. Tor Metrics
Bergman, M. K. (2001). White paper: the deep wep: surfacing hidden value. Journal of Eletronic
Publishing, v. 7, n. 1, ago. 2001.

Beckett, A. The dark side of the internet. Disponível em:
https://www.theguardian.com/technology/2009/nov/26/dark-side-internet-freenet.Acesso
em: 09/04/2026.

Baumgartner, L. P. (2020). O Que Você Diz Que Consome quando ninguém está olhando? um
estudo sobre ética e anonimato das narrativas sobre práticas de consumo dos usuários da rede
Tor. 2020. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo) – Programa de
Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo, Escola Superior de Propaganda e
Marketing (ESPM), São Paulo.

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