O primeiro texto deste projeto não poderia ser outro senão discutir exatamente qual o papel da literacia de mídia. Antes de mais nada, é preciso ressaltar a importância e a centralidade da mídia em nossas vidas.
O papel central da mídia no cotidiano
Se tomarmos a pesquisa We Are Social Digital 2024 Brasil como exemplo, vemos não só que 99,1% dos brasileiros de 16 a 64 anos possuem um smartphone, como também a altíssima taxa de penetração da internet na sociedade brasileira. Esse mesmo grupo passa, em média, de incríveis 9 horas e 13 minutos por dia na Internet. Seja assistindo a alguma coisa, lendo, usando redes sociais, ouvindo rádio, ou jogando jogos. Isso sem contar TV, jornais, cinema, rádio, livros, etc. Apenas a Internet.
Quando olhamos para outros meios de comunicação, 93,9% dos domicílios brasileiros contam com uma televisão, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua – IBGE). Além disso, de acordo com a mesma pesquisa, 48,5% dos domicílios ainda contam com ao menos um rádio.
Independente do ângulo que olhamos, vemos a grande influência que a mídia possui em nossas vidas atualmente. Mas quais as influências disso?
Mídia como instituição educativa
Neste contexto, pesquisadores latino-americanos de comunicação nos ensinam que o consumo de mídia vai além do simples entretenimento: a mídia também educa. Em sociedades como a nossa, em que a vida das pessoas é atravessada por meios de comunicação, a mídia surge como uma instituição que disputa pela formação cidadã.
Isso não significa, porém, que compactuamos com uma visão totalitária, de que ao assistir a um conteúdo de mídia doutrinária uma pessoa ou algo do gênero. Não. Os mesmos autores latino-americanos referidos no começo do parágrafo anterior (e devidamente citados ao final do texto) deixam claro que todo o processo comunicacional é complexo. A forma como uma mensagem é transmitida e, sobretudo a forma como recebemos e consumimos uma mensagem, é atravessadas por diversas instâncias (ou mediações), como família, escola, trabalho, religião, entre outros, que também influenciam o modo como interpretamos o que vemos e ouvimos;
Nesse mesmo sentido, o pesquisador Wolfowicz e seus colegas, ao estudar a relação entre meios de comunicação e processos de radicalização, concluíram que a exposição à mídia, sozinha, tem efeitos limitados sobre a radicalização. Sobre este tópico, pesquisas apontam que, via de regra, uma uma conjunção de diversos fatores é necessária para a radicalização de alguém, que vão desde fatores socio-econômicos até fatores psicológicos. Mas isto é assunto para outro texto.
Por que a literacia de mídia é indispensável?
Mesmo assim, ainda que não de forma absoluta, todo o ecossistema midiático desempenha um papel fundamental na formação de identidade contemporânea – ainda geralmente bem menor do que usualmente se tende a imaginar. Saber como ler, interpretar e até produzir mídia é, hoje, uma competência indispensável.
Desta constatação nasce o objetivo deste projeto: sempre trazer um tópico diferente que nos ajude a entender todo o panorama comunicacional que se faz presente hoje. De jogos à infraestrutura da internet. De conceitos teóricos à programas de televisão.
Para saber mais:
Pesquisa We Are Social Digital 2024 Brasil: https://flagr.com.br/we-are-social-digital-2024-brasil/
Baccega, M. A. (2010). Comunicação/educação: relações com o consumo. Importância para a constituição da cidadania. Comunicação, Mídia e Consumo vol 7, n. 19.
Citelli, A.; Costa, M. C. C. (org).. Educomunicação: construindo uma nova área do conhecimento. Paulinas.
Orozco Gómez, G. (2014). Educomunicação: Recepção midiática, aprendizagens e cidadania. Paulinas.
Wolfowicz, M., Hasisi, B., & Weisburd, D. (2022). What are the effects of different elements of media on radicalization outcomes? A systematic review. Campbell systematic reviews, 18(2), e1244. https://doi.org/10.1002/cl2.1244
Schmid, A. P. (2013). Radicalisation, De-Radicalisation, Counter-Radicalisation: A Conceptual Discussion and Literature Review. ICCT Research Paper.